Quem ama também precisa aprender a partir.

 

Existe uma ideia persistente de que amar significa permanecer. Permanecer apesar das dificuldades, insistir quando a relação já não encontra reciprocidade, suportar o desgaste em nome da história construída e interpretar a separação como prova de que o amor não foi suficientemente forte. Essa concepção transforma a permanência em medida do afeto e, muitas vezes, faz com que pessoas permaneçam em relações que já não produzem encontro, cuidado ou crescimento.

Amar, porém, não significa necessariamente ficar. Há momentos em que permanecer pode representar justamente o contrário do amor: medo de perder, dependência, culpa, apego àquilo que já existiu ou dificuldade de imaginar a própria vida fora daquela relação. A capacidade de partir não diminui a importância de um vínculo. Em determinadas circunstâncias, ela revela que o sujeito conseguiu reconhecer os limites de uma história sem precisar transformar o outro em inimigo ou a própria trajetória em fracasso.

A Psicanálise compreende que toda separação mobiliza perdas profundas. Quando uma relação termina, não desaparece somente a presença de uma pessoa. Desaparecem também rotinas, projetos, expectativas, fantasias e uma determinada imagem de futuro. O sujeito precisa elaborar não apenas a ausência do outro, mas a ausência de uma vida que imaginava viver. Por isso algumas separações produzem um sofrimento que parece desproporcional ao acontecimento imediato. O que está sendo perdido é maior do que a relação concreta.

A Psicanálise do Axé acrescenta a essa leitura a ideia de circulação. O afeto não existe para permanecer imóvel. Ele se movimenta entre pessoas, experiências, palavras e memórias. Uma relação começa quando dois caminhos se encontram, desenvolve-se por meio das trocas e, em alguns casos, chega ao momento em que os caminhos precisam seguir direções diferentes. A separação não elimina necessariamente aquilo que foi vivido. Ela modifica o lugar que aquela experiência ocupa na história de cada sujeito.

Essa compreensão pode ser difícil em uma sociedade que costuma interpretar o fim de uma relação como fracasso. Pergunta-se quem abandonou quem, quem errou, quem foi culpado e quem saiu vencedor. Pouco espaço resta para uma pergunta mais complexa: o que essa relação produziu em cada um e o que já não é possível continuar produzindo? Algumas histórias não terminam porque foram falsas. Terminam porque aquilo que sustentava o vínculo deixou de existir ou porque permanecer passou a impedir a vida.

Há pessoas que permanecem juntas durante anos porque confundem compromisso com obrigação. Outras permanecem porque têm medo de começar novamente. Existem aquelas que acreditam que terminar significa admitir que perderam tempo. Há também quem permaneça porque aprendeu que amar é suportar. Essas diferentes formas de aprisionamento podem receber a aparência de fidelidade, quando na realidade escondem uma dificuldade de reconhecer que uma relação mudou.

A ancestralidade participa dessa questão porque cada pessoa aprende, dentro de uma história familiar e cultural, determinadas ideias sobre casamento, compromisso, separação e pertencimento. Algumas famílias ensinaram que relações devem ser preservadas a qualquer preço. Outras carregam experiências de abandono que fazem da permanência uma espécie de garantia contra a repetição do sofrimento. Há quem tenha aprendido que partir é trair e quem tenha aprendido que depender é perigoso. Quando essas concepções chegam aos relacionamentos amorosos, nem sempre percebemos que estamos repetindo uma história que começou antes de nós.

A Psicanálise do Axé não compreende ancestralidade como sentença. Uma herança pode ser reconhecida, interpretada e transformada. O sujeito não é obrigado a repetir a maneira como seus antepassados viveram seus vínculos. Pode conservar aquilo que produz vida e interromper aquilo que produz sofrimento. A transmissão ancestral torna-se mais potente justamente quando deixa de ser repetição automática e passa a ser elaboração.

Nas tradições afro-brasileiras, a ideia de caminho possui uma força simbólica particular. Caminhar pressupõe movimento. Uma pessoa pode compartilhar uma estrada com outra durante determinado período e, ainda assim, chegar ao momento em que suas direções precisam mudar. Isso não significa que o encontro tenha sido inútil. Significa que os caminhos cumpriram uma função naquele trecho da existência.

A simbologia de Exú Bará oferece uma imagem importante para compreender essa passagem. Exú está relacionado às encruzilhadas, aos caminhos, à comunicação e às mudanças de direção. A encruzilhada não obriga ninguém a permanecer no ponto de encontro. Ela apresenta possibilidades. Seguir adiante pode significar escolher uma direção diferente daquela que vinha sendo percorrida até então.

Aprender a partir exige reconhecer essa dimensão da escolha. Nem toda separação é saudável, e nenhuma ruptura deve ser romantizada. Existem términos produzidos por violência, abandono, irresponsabilidade ou circunstâncias que poderiam ter sido trabalhadas de outra maneira. Partir também pode ser difícil, injusto ou doloroso. A questão não é transformar toda separação em gesto de libertação, mas compreender que existem situações nas quais continuar representa uma forma de violência contra si mesmo.

Também é necessário distinguir partir de fugir. Fugir pode significar abandonar uma relação diante da primeira dificuldade, evitar conflitos ou recusar qualquer responsabilidade afetiva. Partir, em outro sentido, pressupõe elaboração. É reconhecer aquilo que foi vivido, compreender os próprios limites, assumir a responsabilidade pelas escolhas e aceitar que o outro também possui o direito de seguir sua própria trajetória.

Por isso, aprender a partir não significa aprender a deixar de amar. Significa aprender que o amor não confere propriedade sobre o outro. Quem ama precisa suportar a existência da diferença. O outro não é uma extensão de si mesmo, nem uma garantia contra a solidão. É um sujeito com desejos, limites e caminhos próprios.

Essa compreensão também modifica a maneira como pensamos o reencontro. Algumas pessoas passam anos esperando que alguém volte porque acreditam que a história não pode terminar enquanto ainda existe sentimento. Mas sentir não significa necessariamente precisar retomar. Uma memória pode permanecer sem exigir repetição. Um amor pode ser reconhecido sem precisar ser reconstruído.

A prosperidade afetiva talvez esteja justamente na capacidade de permanecer inteiro diante dessas transformações. Prosperar no amor não significa colecionar relações duradouras. Significa desenvolver a capacidade de construir vínculos nos quais exista cuidado, liberdade, reciprocidade e responsabilidade. Significa saber permanecer quando há vida a ser construída e saber partir quando a permanência deixou de ser capaz de produzi-la.

A separação, nesse sentido, pode ser compreendida como uma passagem. Não como uma vitória sobre o outro, nem como uma derrota pessoal, mas como um momento em que a vida exige outra configuração. O luto será necessário. A saudade poderá permanecer. Algumas perguntas talvez nunca encontrem respostas definitivas. Ainda assim, existe um movimento possível entre a perda e a reconstrução.

Quem ama também precisa aprender a partir porque nenhum vínculo humano pode oferecer garantia absoluta de permanência. Amar é aceitar a vulnerabilidade do encontro. É saber que aquilo que hoje está presente pode mudar amanhã e que a liberdade do outro faz parte da própria possibilidade de amar. Quando essa verdade é aceita, a permanência deixa de ser uma obrigação e torna-se uma escolha.

Sob a ótica da Psicanálise do Axé, partir não significa abandonar a história. Significa permitir que ela continue circulando de outra maneira. O que foi aprendido permanece. O que foi vivido deixa marcas. O que precisa ser transformado encontra novos caminhos. Algumas pessoas caminham conosco durante uma vida inteira; outras nos acompanham por um trecho. A sabedoria talvez esteja em reconhecer a diferença sem transformar nenhum desses percursos em fracasso.

Quem ama também precisa aprender a partir porque amar não é impedir que os caminhos mudem. É reconhecer o momento em que dois caminhos ainda podem caminhar juntos e aquele em que seguir adiante, cada um em sua direção, é a forma mais honesta de preservar aquilo que houve de verdadeiro no encontro.

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