Por que nunca esquecemos o primeiro amor?
Poucas lembranças permanecem tão vivas quanto a do primeiro amor. Anos podem passar. Novos relacionamentos surgem, a vida segue outros caminhos, os projetos mudam e até o rosto daquela pessoa começa a perder nitidez. Ainda assim, basta uma música, um perfume, uma fotografia antiga ou o nome pronunciado por acaso para que algo desperte no interior de quem viveu aquela experiência. A pergunta, então, surge quase inevitavelmente: por que o primeiro amor parece ocupar um lugar que nenhum outro consegue substituir?
A resposta não está, necessariamente, na intensidade da relação. Muitos primeiros amores duram poucos meses. Alguns sequer chegam a transformar-se em namoro. Outros terminam antes mesmo de se consolidarem. O que permanece não é apenas a pessoa, mas aquilo que ela representou em determinado momento da vida. O primeiro amor costuma ser o primeiro encontro consciente com o desejo, com a expectativa de ser escolhido, com a descoberta da intimidade e com a experiência de imaginar um futuro compartilhado. Não se trata apenas de conhecer alguém; trata-se de conhecer uma parte de si mesmo que até então permanecia desconhecida.
A Psicanálise compreende que o desejo humano nunca se dirige apenas ao objeto amado. Aquilo que buscamos no outro também revela aspectos profundos da nossa própria constituição. Amar significa investir afetivamente em alguém, mas também construir imagens, expectativas e fantasias sobre quem acreditamos ser quando estamos ao lado dessa pessoa. O primeiro amor inaugura esse movimento. Pela primeira vez, alguém experimenta a sensação de ser visto de uma maneira diferente, de tornar-se importante para outro sujeito e de reorganizar a própria identidade a partir desse encontro.
Quando a relação termina, não desaparece apenas a presença da pessoa amada. Desfaz-se também uma forma de existir que nasceu durante aquele vínculo. É por isso que tantas lembranças permanecem vivas. A memória conserva não apenas um rosto ou uma história, mas uma versão de nós mesmos que existiu naquele tempo e que nunca mais voltará exatamente da mesma maneira.
A Psicanálise do Axé amplia essa compreensão ao reconhecer que a memória afetiva não pertence apenas à mente. Ela atravessa o corpo, organiza gestos, desperta sensações e permanece circulando mesmo quando acreditamos ter superado uma experiência. Nas tradições afro-brasileiras, o corpo nunca é apenas matéria. Ele guarda marcas da história, da ancestralidade e das relações que constituíram cada sujeito. Amar também deixa inscrições. Algumas desaparecem com o tempo; outras transformam-se em parte da própria maneira de sentir o mundo.
Essa permanência não deve ser confundida com incapacidade de seguir adiante. Recordar o primeiro amor não significa permanecer preso a ele. A memória afetiva continua existindo porque ela participa da construção da identidade. Da mesma forma que ninguém esquece completamente a casa onde passou a infância ou o professor que modificou sua maneira de pensar, também não desaparece a lembrança daquele encontro que inaugurou uma nova forma de experimentar o desejo.
Entretanto, existe uma diferença importante entre recordar e permanecer vivendo no passado. Algumas pessoas transformam o primeiro amor em referência absoluta para todas as relações seguintes. Nenhum novo encontro parece suficientemente intenso, porque todos são comparados a uma experiência idealizada. Nesse momento, a memória deixa de cumprir sua função de preservar a história e passa a impedir a construção de novas possibilidades afetivas.
A Psicanálise do Axé compreende que toda memória precisa continuar circulando para permanecer viva. Aquilo que é transformado em monumento deixa de produzir crescimento. O afeto, assim como a água, necessita movimento. Quando permanece estagnado, deixa de alimentar a vida e passa a aprisionar o sujeito dentro de uma única narrativa sobre si mesmo.
É justamente nesse ponto que a simbologia de Exú Bará oferece uma chave importante de interpretação. Exú Bará representa os caminhos, as passagens, os encontros e a circulação. Sua presença recorda que nenhuma experiência humana encontra sentido quando permanece imóvel. O primeiro amor não existe para impedir os próximos encontros, mas para integrar a história daquele que continua caminhando. O passado conserva seu valor quando dialoga com o presente, não quando ocupa o lugar do presente.
Também é preciso reconhecer que nem sempre sentimos falta da pessoa que amamos. Em muitos casos, sentimos falta daquilo que éramos ao lado dela. A juventude, a descoberta, a intensidade das primeiras escolhas e a sensação de que tudo ainda estava por acontecer acabam sendo projetadas sobre aquele relacionamento. Quando olhamos para trás, confundimos a saudade da própria vida com a saudade de quem caminhava ao nosso lado.
Essa distinção modifica profundamente a forma de compreender o sofrimento amoroso. O problema nem sempre é a ausência do outro. Muitas vezes, é a dificuldade de reconhecer que nós mesmos também mudamos. Crescemos, acumulamos experiências, enfrentamos perdas, amadurecemos e construímos novas formas de amar. Permanecer procurando a emoção do primeiro amor talvez seja uma maneira de desejar voltar a um tempo que já não existe.
Sob a ótica da Psicanálise do Axé, amar nunca significa repetir uma experiência anterior. Cada encontro inaugura uma nova possibilidade de circulação afetiva. Cada vínculo transforma aqueles que dele participam. O primeiro amor permanece importante porque abriu uma porta que antes estava fechada. Foi ele quem apresentou o sujeito ao desejo, à vulnerabilidade, à alegria do encontro e, muitas vezes, à dor da perda. Nenhuma dessas experiências desaparece completamente, porque todas participam da construção daquilo que nos tornamos.
Talvez nunca esqueçamos o primeiro amor porque ele não pertence apenas à nossa memória afetiva. Ele pertence à nossa história. Entretanto, maturidade não consiste em viver olhando para trás. Consiste em reconhecer que aquilo que nos transformou continua presente, mas já não precisa determinar os caminhos que ainda podemos percorrer. O amor amadurece quando deixa de procurar repetir o primeiro encontro e passa a aceitar que cada nova relação possui a capacidade de revelar partes de nós que ainda permanecem desconhecidas. É nessa abertura para o novo que a Psicanálise do Axé reconhece uma das expressões mais profundas da prosperidade afetiva.

Comentários
Postar um comentário