Amar é encontrar o outro ou reencontrar a si mesmo?
Há uma imagem recorrente sobre o amor que talvez diga mais sobre nossas expectativas do que sobre a própria experiência amorosa: a ideia de que, em algum lugar do mundo, existe alguém capaz de nos completar. O encontro amoroso seria então uma espécie de chegada. Encontramos alguém, somos reconhecidos, desejados, escolhidos e, finalmente, sentimos que uma parte que nos faltava encontrou seu lugar. A força dessa fantasia ajuda a explicar por que tantas pessoas esperam do amor aquilo que nenhuma relação humana consegue oferecer por completo: a promessa de que nunca mais estaremos sozinhos.
A experiência amorosa, porém, parece operar de maneira mais complexa. Encontrar alguém frequentemente significa encontrar também partes de nós mesmos que permaneciam desconhecidas. O outro nos devolve imagens, provoca desejos, desperta inseguranças, revela limites e produz perguntas que talvez nunca tivéssemos formulado sozinhos. Amar não é apenas descobrir quem está diante de nós. É também descobrir quem nos tornamos quando estamos diante daquela pessoa.
A Psicanálise compreende que o amor está profundamente relacionado ao desejo. Não desejamos o outro apenas por aquilo que ele é objetivamente, mas também pelo lugar que ele ocupa em nossa fantasia, pelaquilo que representa e pelos significados que projetamos sobre sua presença. Por isso, duas pessoas podem viver o mesmo relacionamento de maneiras completamente diferentes. Cada uma encontra no outro algo que pertence também à sua própria história.
Essa dimensão ajuda a compreender por que determinadas relações nos transformam tão profundamente. Algumas pessoas parecem tocar lugares que desconhecíamos. Uma palavra, um gesto ou uma forma de olhar pode despertar sentimentos que estavam adormecidos. O encontro amoroso produz movimento porque coloca em circulação aquilo que antes permanecia organizado de outra maneira. O sujeito passa a perguntar o que deseja, o que aceita, o que teme e o que não está mais disposto a suportar.
A Psicanálise do Axé amplia essa leitura ao compreender o sujeito como alguém constituído por relações, memórias e pertencimentos. Ninguém chega a um relacionamento completamente sozinho. Cada pessoa carrega uma história familiar, referências culturais, experiências de cuidado, perdas, expectativas e formas aprendidas de amar. Quando dois sujeitos se encontram, não são apenas duas individualidades que se aproximam. Encontram-se também duas histórias.
É nesse encontro que a ancestralidade ganha uma dimensão particular. Ela não determina quem iremos amar nem estabelece um roteiro inevitável para nossos relacionamentos. A ancestralidade participa daquilo que recebemos como linguagem afetiva, como compreensão de família, cuidado, compromisso, liberdade e pertencimento. Há quem tenha aprendido que amar é cuidar de tudo. Há quem tenha aprendido que amar é suportar. Há quem associe amor à proteção e quem confunda proteção com controle. Muitas dessas concepções foram recebidas antes mesmo que pudéssemos questioná-las.
Quando alguém se apaixona, essas referências entram silenciosamente na relação. Por isso, muitas vezes repetimos padrões afetivos sem perceber. Escolhemos pessoas diferentes que ocupam lugares semelhantes em nossa vida. Reproduzimos conflitos que já conhecemos. Procuramos no outro uma confirmação de algo que aprendemos sobre nós mesmos. O amor pode então revelar uma história que ainda não foi suficientemente elaborada.
Isso não significa que todo relacionamento seja uma repetição. O encontro também pode interromper padrões. Uma relação pode apresentar uma forma de cuidado que o sujeito nunca havia experimentado. Pode ensinar que discordar não significa abandonar, que liberdade não significa desamor e que intimidade não exige controle. O outro pode tornar-se uma experiência de diferença capaz de ampliar aquilo que entendíamos como possibilidade de amar.
Nas tradições afro-brasileiras, o encontro possui uma dimensão que ultrapassa a simples coincidência entre duas pessoas. Caminhos se cruzam, forças se relacionam, acontecimentos produzem consequências e a existência se constitui por meio de relações. Nada vive completamente isolado. A própria ideia de ancestralidade pressupõe vínculo: alguém recebeu, alguém transmitiu, alguém transformou e alguém continuará transmitindo.
A simbologia de Exú Bará oferece uma chave especialmente fecunda para pensar o encontro amoroso. Exú está associado aos caminhos, às passagens, à comunicação e às encruzilhadas. A encruzilhada não representa apenas confusão ou escolha. Ela é o lugar onde caminhos diferentes se encontram e, justamente por isso, onde novas possibilidades podem surgir. O amor possui algo dessa estrutura. Encontrar alguém significa entrar em uma zona na qual nossa trajetória pode continuar exatamente como antes ou assumir outra direção.
O problema aparece quando esperamos que o outro faça por nós aquilo que precisamos realizar internamente. Procuramos alguém que cure todas as feridas, elimine a solidão, confirme nosso valor e garanta que nunca seremos abandonados. Nesse momento, o amor deixa de ser encontro entre sujeitos e transforma-se em tentativa de preencher uma falta que pertence à própria história.
Nenhuma pessoa consegue ocupar esse lugar indefinidamente. A idealização inevitavelmente encontra a realidade. O outro possui limites, desejos próprios, contradições e necessidades que não coincidem completamente com as nossas. Amar exige reconhecer essa alteridade. O outro não existe para completar nossa narrativa; existe também para viver a própria.
Por isso, reencontrar a si mesmo talvez seja uma das consequências mais profundas de amar. No relacionamento, descobrimos nossos limites, nossas formas de desejar, nossas fragilidades e nossas possibilidades. Descobrimos aquilo que aceitamos por amor e aquilo que já não podemos aceitar sem abandonar a nós mesmos. Descobrimos também que autonomia e vínculo não são opostos. É possível pertencer sem possuir e permanecer sem desaparecer dentro do outro.
A separação pode tornar esse reencontro ainda mais evidente. Quando uma relação termina, muitas pessoas sentem que perderam uma parte de si. Em certo sentido, isso é verdadeiro: uma identidade construída dentro daquele vínculo deixa de existir da mesma maneira. Mas a perda também pode abrir espaço para uma reconstrução. O sujeito começa a recuperar desejos, interesses e possibilidades que haviam sido deixados de lado. O fim do relacionamento pode revelar não apenas a ausência do outro, mas a presença de um eu que precisa ser novamente escutado.
A prosperidade afetiva talvez esteja justamente nessa capacidade de encontrar o outro sem abandonar a si mesmo. Amar não deveria exigir desaparecimento. Uma relação pode ampliar a existência sem substituí-la. Pode oferecer pertencimento sem transformar liberdade em ameaça. Pode produzir intimidade sem destruir a diferença.
A pergunta inicial, portanto, talvez não precise escolher entre duas respostas. Amar é encontrar o outro e, por meio desse encontro, reencontrar partes de si que estavam esquecidas, reprimidas ou ainda desconhecidas. O outro não é necessariamente aquele que nos completa. Pode ser aquele que nos revela.
Sob a ótica da Psicanálise do Axé, o amor é uma experiência de circulação: circulam desejo, palavra, cuidado, memória e transformação. Dois caminhos se encontram, mas nenhum deles deixa de possuir sua própria direção. O verdadeiro encontro não acontece quando duas pessoas deixam de ser duas para formar uma só. Acontece quando conseguem caminhar juntas sem perder a capacidade de reconhecer a própria estrada.
Talvez seja essa uma das formas mais maduras de compreender o amor: não como a chegada a alguém que finalmente nos completa, mas como uma experiência que nos permite descobrir quem somos enquanto caminhamos ao lado de outra pessoa. E, às vezes, é justamente quando encontramos o outro que percebemos que ainda havia alguém dentro de nós esperando para ser reencontrado.

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