Psicanálise do Axé: uma conversa entre a alma e a ancestralidade
Imagine que sua vida seja uma casa. Todos os dias você abre portas, fecha janelas, organiza alguns cômodos e, sem perceber, vai empurrando certas coisas para um quartinho onde quase nunca entra. Ali ficam medos antigos, lembranças difíceis, sonhos abandonados, culpas, saudades e perguntas que nunca encontraram resposta.
Agora imagine que alguém lhe entregue uma lanterna. Essa lanterna não serve para julgar o que está guardado naquele quarto, mas para iluminar cada objeto com calma. Você percebe que muitas daquelas coisas continuam influenciando sua vida, mesmo escondidas. A Psicanálise faz algo parecido: ajuda a iluminar aquilo que permanece dentro de nós sem que percebamos.
A Psicanálise do Axé caminha na mesma direção, mas leva outra luz para esse encontro. Além da história pessoal, ela convida a olhar para aquilo que recebemos dos nossos ancestrais, da nossa comunidade, da cultura e das tradições afro-brasileiras. Afinal, ninguém nasce do nada. Antes mesmo do primeiro choro, já existe uma história esperando por nós.
Pense em uma árvore centenária. Quem passa por ela costuma admirar o tronco, os galhos e as folhas. Pouca gente se lembra das raízes, porque elas permanecem escondidas. Ainda assim, são justamente elas que sustentam tudo o que aparece acima da terra.
As pessoas também possuem raízes. Algumas vêm da família. Outras surgem das experiências vividas, da fé, das amizades, dos lugares por onde passamos e das pessoas que nos ensinaram algo importante. Há raízes feitas de alegria, mas também existem aquelas marcadas pela dor. Todas participam da construção de quem somos.
A Psicanálise do Axé acredita que compreender essas raízes nos ajuda a entender nossas escolhas, nossos medos e até aquilo que repetimos sem perceber. Quantas vezes alguém diz: "Eu sempre acabo vivendo a mesma situação"? Ou então: "Não sei por que faço isso de novo." Muitas respostas podem estar escondidas nas histórias que carregamos.
Existe outra imagem que ajuda a compreender essa proposta.
Imagine um rio. Em alguns trechos, a água corre livremente. Em outros, pedras impedem sua passagem. Quando isso acontece, o rio não deixa de existir; ele apenas procura outro caminho. A vida também funciona assim. Nossos sentimentos, desejos e sonhos precisam circular. Quando algo bloqueia esse movimento, aparecem angústias, conflitos e sofrimentos.
Nas tradições afro-brasileiras, o Axé representa exatamente essa força que coloca a vida em movimento. Não é um objeto que alguém entrega. Também não é um privilégio reservado a poucas pessoas. O Axé pode ser entendido como a energia que anima a existência, fortalece os vínculos, impulsiona as transformações e permite que a vida continue florescendo.
Por isso, a Psicanálise do Axé não pergunta apenas: "O que aconteceu com você?" Ela também pergunta: "Como essa experiência afetou a sua força de viver?" São perguntas diferentes, mas que caminham lado a lado.
Outra comparação pode tornar tudo ainda mais simples.
Imagine uma roda de conversa em volta de uma fogueira. Cada pessoa conta uma história. Uma fala sobre coragem. Outra lembra uma perda. Alguém compartilha uma alegria. Sem perceber, todos aprendem uns com os outros. Nenhuma história pertence apenas a quem a contou; cada narrativa passa a fazer parte da experiência coletiva.
A Psicanálise do Axé enxerga a vida dessa maneira. Cada pessoa possui sua história, mas essa história nunca está completamente separada das histórias de quem veio antes e das pessoas que caminham ao seu lado. Somos indivíduos, mas também somos continuidade.
Talvez seja justamente essa a maior diferença em relação à maneira como costumamos olhar para nós mesmos. Muitas vezes acreditamos que precisamos enfrentar tudo sozinhos. A Psicanálise do Axé lembra que crescer também significa reconhecer os saberes que nos antecederam. Há ensinamentos guardados nas famílias, nos terreiros, nas comunidades, nas canções, nos provérbios, nas rezas e nas experiências compartilhadas entre gerações.
Nada disso elimina a importância da escuta, do diálogo ou da reflexão sobre a própria vida. Pelo contrário. A proposta é ampliar esse olhar. Em vez de enxergar apenas o indivíduo, passamos a enxergar também sua ancestralidade, seus vínculos e os caminhos que o constituíram.
No fim das contas, a Psicanálise do Axé pode ser entendida como um convite para caminhar com mais consciência. Ela reúne a escuta da Psicanálise com a sabedoria ancestral das tradições afro-brasileiras para lembrar algo que, muitas vezes, esquecemos: conhecer a si mesmo também é conhecer as histórias que vivem dentro de nós.
Quando entendemos de onde vêm nossos medos, nossos afetos, nossas crenças e nossas forças, descobrimos que a vida não é apenas aquilo que acontece conosco. Ela também é aquilo que escolhemos transformar. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do Axé: manter a existência em movimento, honrando as raízes enquanto abrimos novos caminhos.
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